terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Fa(r)do Tropical

Texto elaborado por Fabrício Costa, dedicado à Lorenzzo Antonini
Comentado por Lorenzzo Antonini e Fabrício Costa



“Ai esta terra ainda vai cumprir seu ideal. Ainda vai tornar-se um imenso Portugal”. E viva a deficiência e a inoperância do Estado brasileiro, herdado da mãe Lusitânia! Merece um ode à burocracia d’alem mar que aqui se enraizou, germinou, floresce, frutifica e se reproduz. Mas a cópia nunca sai melhor que o original.

Para abarcar a todos do compadrio do grupo político, que toma de assalto o Estado, é necessário um Estado grande, inoperante, burocrático, paquidérmico e hipertrofiado (1), que sirva de “cabide de emprego” para a ampla base governista. Enquanto isso, o povo vibra com a Bolsa Família, uma versão recalcada e menos brilhante, mas não sem menos sucesso, da política do “Panis et circensis”(2).

“E o Estado?”- outros perguntarão. E eis que os governistas responderão:
-“Isso é choro de perdedor.”
-“São as ‘zelites’” (3), e até mesmo “essa oposição é golpista”, bradarão os que dizem “nunca antes na história deste país”...

Há quem se veja constrangido em criticar o atual governo auto-intitulado popular. Mas não devemos perder de vista o célebre pensamento de Juvenal: “Quis custodiet ipsos custodies?”(4) .
Até quando o populismo rasteiro irá graçar entre nós? Até quando a figura do governante será mitificada? Até quando, partido e governo se misturarão de forma quase simbiótica na cabeça de uns? Até quando interesses do Estado serão postos em segundo plano por interesses do grupo no poder?

Partilhem cargos, comissões, estatais, ministérios, e por que não passaportes diplomáticos. Tudo em torno do interesse do grupo que toma posso do Estado. Afinal como dizia um outro Luís: “L’etat ces’t moi”(5). Mas como já disse, a cópia nunca sai melhor que o original. Ou discutindo dentro do campo, dito, deles: “a primeira vez que algo acontece é como tragédia, a segunda como farsa”.(6)

Enquanto isso, continua a dormir em berço esplêndido, ó pátria mãe gentil. Dormem cidadãos, dormem os direitos, dormem os legais, dormem os corretos.
Talvez o nosso Fado (ou fardo) seja mais triste deste lado do Atlântico.

Vontade de voltar ao útero.

Vontade de voltar ao Tejo.



(1). O Estado grande, inoperante, burocrático e hipertrofiado é aquele que abarca grandes líderes populistas, que se intitulam o maior representante da nação. Essa nação vive o pior dos dois mundos, a alta carga tributária de um sistema nacional-desenvolvimentista e a baixa qualidade dos serviços, uma vez que promover o desenvolvimento de empresas privadas é coisa das “zelite”. Um Presidente, chefe de Estado e de Governo ao mesmo tempo, que tem o poder de, em uma canetada, colocar em prática um plano sem a prévia autorização e discussão do congresso, é caracterizado como hipertrofiado, na medida em que concentra o domínio de diversas instituições públicas que acabam utilizadas como cabides de emprego.

(2). Política do pão e circo, utilizada na Roma antiga para entreter os insatisfeitos com o governo, não rebelando-se. Hoje, a política da Bolsa Família agrega-se ao fator Futebol, Cerveja e Carnaval, formando um cenário perfeito para a domesticação da população, e a mistificação do representante da nação.

(3). As “zelite” se referem claramente à elite. O termo é constantemente utilizado para mistificar no povo a idéia de uma elite oposicionista, e ao mesmo tempo golpista.

(4). “Quis custodiet ipsos custodiet?”, é uma referência ao tricameralismo brasileiro, que, supostamente deveria funcionar em harmonia, a fim de vigiar e manter a ordem dos três poderes. Seu significado é “E quem guardará os guardiões?”, mostrando que a força de um poder se sobrepõe à outros dois.

(5) Luís XVI, "O Estado é meu".

(6) Karl Marx em uma análise sobre o golpe de Estado perpetrado por Napoleão III, em alusão ao fato de imitar o procedimento de seu tio, Napoleão Bonaparte, no golpe do 18 Brumário.




Obrigado pelo texto, amigo. É realmente uma crítica e um desabafo ao nosso sistema político, que entra governo, sai governo, a procedência é a mesma. Que sirva de reflexão aos jovens e também aos velhos eleitores, ó pátria amada Brasil.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

É uma pena.

É uma pena. Que voa lá longe, alegre e serena
É uma pena, que não possa ter sua alma.
É uma pena, que de tão pequena, não é vista
É uma pena, ter o teu baú, sem ter a tua chave
É uma pena, que a pena, não seja vista
É uma pena, deixar o seu amor ao acaso
É uma pena, a beleza da pena não ser vista
É uma pena, um coração como este, fadado amor, sucumba à dor
É uma pena, o homem gigante, arrancar suas penas, e fazer de suas penas, o consolo para suas penas

É uma pena, pois a pena, alegre e serena, singela e pequena, mesmo ingênua, pertenceu a uma ave, robusta e perspicaz, forte e valente, que de tanto falar, acabou-se por gente.
É uma pena, assim como a ave, que perde sua pena, esse amor acabar, e herdar a hiena.




Não virem penas. Não sejam arrancados de seus locais de origem, de seu aconchego, por nada nem ninguém. Não virem penas, que são substituíveis e nunca são reparadas. É uma pena sentir pena.